Emily abriu os olhos uma manhã e se sentiu grata. Morava em uma bela casa em estilo vitoriano, decorada com cores quentes e aconchegantes. Tinha uma gata que, ao contrário do que ouvimos sobre felinos, era calorosa e companheira. Morava na deliciosa Bath, cidadezinha de pouco mais de 10 mil habitantes na costa do Maine. Era dona da livraria localizada na praça principal da cidade e amava seu trabalho, então não era um pesadelo sair de casa de manhã, nem no inverno. Vivia uma vida boa. Se alimentava bem, fazia exercícios físicos e visitava seu médico, o velho Dr. McCallum, todos os anos para um check-up. Morava sozinha mas não se sentia solitária. Os moradores de Bath cuidavam uns dos outros. Não da forma enxerida que acontecia em outras cidades, não, de jeito nenhum. Todos respeitavam a privacidade uns dos outros, mas estavam sempre ali quando vc precisava de alguma coisa, fosse uma xícara de açúcar ou um abraço e um tapinha nas costas.

Sorrindo com a constatação de que tinha uma vida quase perfeita, Emily se levantou e foi para o chuveiro. Quase. Todos ser humano é quase feliz, se sente quase amado, acha que é quase rico. Nunca estamos totalmente satisfeitos. E com Emily não era diferente. Mais dinheiro? Seu pai era dono de uma construtora em Seattle, se precisasse algum dia de dinheiro era só ligar para ele. Os pais não eram apaixonados pela idéia de sua filha caçula morar no Maine, a cerca de 46 horas de distância de carro (o pai de Emily, Martin, tinha medo de avião), mas a apoiavam. De acordo com Helen, a mãe de Emily, ela era um pequeno gênio. Então, tudo que ela fizesse daria certo. Até pegar seu diploma de História da Arte conquistado em Yale e pendurá-lo em uma livrariazinha charmosa e aconchegante em Bath. Mais amor? Emily tinha dois irmãos, Paul e Daniel, e duas irmãs, Katherine e Michelle, seus pais, seus avós maternos, sua avó paterna, primos, tios, amigos… era todo o amor de que ela precisava, certo?

Depois do ritual banho-café da manhã-alimentar Donatella Emily pegou suas chaves e sua bolsa e seguiu rua abaixo até sua livraria. Ela adorava o fato de não precisar de um carro para ir trabalhar. Podia caminhar, sentir o sol no rosto, comprimentar as pessoas, pegar um bagel fresquinho para comer na livraria mais tarde. Podia apreciar a bela arquitetura de Bath. Podia enfim viver. Em Bath Emily era especial, era amada e respeitada. Em Bath ela era tudo o que poderia ser. Bem diferente dos tempos da universidade, onde tinha que provar ser a melhor, a mais promissora, a que ganharia mais dinheiro. Esse era o peso de ser uma Carter-Forbes. Tinha que estar à frente de tudo. E Emily só queria ser… Emily. A doce, sensível, educada e não-interessada-em-ser-uma-CEO Emily. O negócio da família já estava sendo muito bem cuidado por Paul, Katherine e Michelle. Ela e o irmão Daniel podiam ser os sonhadores, podiam ler e pintar, e seus pais os encorajavam a serem assim. Pena que as outras pessoas não pensavam o mesmo.

Emily perdera a conta de quantas vezes ouvira no ensino médio e na universidade que deveria fazer administração ou algo do tipo e assumir o império de construção da família. Geralmente ela sorria e dizia algo como “eu penso em fazer isso um dia” ou “seria ótimo, não?” quando na verdade queria dizer algo como “meta-se com a sua vida”. Mas Emily nunca teve coragem suficiente para dizer isso. Não até o final da universidade. Não até Justin a forçar a ser corajosa.

Você podem pensar que Justin era um rebelde sem causa, que vivia a vida do seu jeito, não ligando para o que os outros pensavam dele. Ele seria lindo, loiro e usaria um corte de cabelo incomum. E seria o namorado que todo pai ama odiar, levando Emily para festas regadas à cocaína e metanfetamina. Justin era o melhor amigo de Emily no colegial e em Yale. Era bonito sim, mas não uma beleza impactante. Era doce e paciente, inteligente e concentrado. Tímido, sempre foi o alvo principal de todos os valentões. Era sempre rejeitado pelas garotas de quem gostava. Sensível, Justin queria ser escritor. Sua família não apoiava sua decisão e ele acabou fazendo Administração. No ano de sua formatura Justin se matou em seu dormitório e deixou uma carta para Emily. Uma carta que ela guardava na carteira e relia quase todos os dias.

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